Rudá Moura (ruda) wrote,

Ars longa, vita brevis

No dia 08 de Julho de 2010 vou completar dois meses de uma cirurgia de remoção do apêndice. Para quem não sabe, eu tive que fazer (ou fizeram em mim) uma cirurgia de emergência. Tudo começou um dia antes, na sexta-feira, com uma dor no abdômen bem incomum, aguda e persistente. Da hora do almoço até as cinco da tarde quando resolvi ir pra casa, ainda estava no trabalho e não sei como pude ficar trabalhando e sentido aquela dor ( sintoma de workaholic?). Fui para casa para descansar e ver se “a dor passava” – e não passava. É nessa hora que liga um aviso interno de que algo está errado, e então fui direto pro hospital aqui perto de casa (Mãe de Deus).

O resumo da história: fizeram o diagnóstico, apalpar a parte baixa à direita do abdômen, ecografia e exame de sangue, o resultado era que estava com apendicite, infecção e precisava operar no dia seguinte. Na hora bate um pânico, um sentimento de não querer aceitar, mas diante de tudo eu simplesmente aceitei como a melhor opção e deixei as coisas irem, afinal de contas, a outra opção é voltar pra casa e morrer de infecção generalizada.



A operação foi bem sucedida, como ainda não havia espalhado pelo abdomen (não suturou / não explodiu / etc.) foi relativamente simples, sem a necessidade de abrir um talho enorme. Eu tenho 3 furos na barriga, aonde os tubos para a operação via câmera foram inseridos. A minha recuperação foi boa, na primeira semana ainda estava dolorido e cansado, a segunda semana já comecei a voltar ao normal. Tive a sorte de contar com a ajuda de bons amigos para me recuperar e me ajudar com o “operacional” aqui em casa. Obrigado do fundo do meu coração por isso.

Mas subitamente esse evento me fez repensar um pouco no estilo de vida que estava levando, em questionar prioridades e no que se consiste viver. Obviamente não cheguei em muitas conclusões, mas refletindo pouco, uma coisa me incomodou: foi ter adotado um estilo de vida que se tornou padrão no Brasil, resultando dos anos de boa economia. É a centralização da vida como consumismo puro, em que o objetivo é ter as coisas (para mostrar aos outros); incluído nisso estão focar carreira, se preparar para o mercado de trabalho, “empoweirar” e “tweakar” a vida para ser competitivo – termos roubados de maneira boba do inglês, para significar o autoaperfeiçoamente exagerado de produtividade e desempenho “na vida e no dia-a-dia”. Acho que o resumo é a ganância de querer ter sempre mais, conquistar mais. É carro do ano, casa nova, móveis novos, TV LCD de 50 polegadas full HD, Playstation 3. Entretenimento em FULL HD e demais coisas de consumo imediato.



Não que eu não queira um carro ou uma casa, ou ter bom entretenimento e conforto. Longe disso, eu gosto de ter e usufruir de objetos e serviços de qualidade, não censuro ninguém por isso – por exemplo, eu adoro os computadores da Apple, que são brinquedos tecnológicos caros e elitizados. O que eu censuro é o consumo desvairado e agressivo da classe média, geralmente causado por “pressão social”, em que as pessoas tem os produtos não para si, mas para mostrar para os outros, para serem aceitos naquele círculo de relacionamento. Desse tipo de estilo de vida, eu quero estar fora.

Fazendo uso de um velho clichê, o mais importante da vida é a tua vida, independente de tudo e qualquer coisa: dos pais, filhos, família, amigos, trabalho, etc.; o instinto de auto-preservação e de procura da felicidade é algo inerente. Em um dos momentos que se antecederam a operação, eu procurei falar com Deus – sim, minha fé tem a ver com o medo da morte – e um dos “pedidos” para querer que tudo corra bem foi de construir uma família. É um desejo genuíno, mas agora eu vejo que é algo bastante fora da minha realidade. Infelizmente eu não posso ter um tipo de relacionamento baseado no estilo de vida em que a maioria das famílias procuram viver; eu posso estar muito mal informado, mas aparentemente esse estilo de vida é conflitante com o que penso agora, e principalmente, com as expectativas das mulheres em relação a ter uma casa e família.

Outro ponto que eu acho importante reafirmar é que o trabalho é importante e gratificante para para vida de uma pessoal. Não importa o tipo de trabalho (físico ou intelectual), ou o que se ganha, mas como tu te sente fazendo e o que obténs em troca (dinheiro, sucesso, reconhecimento) com ele. O que não gosto é da supercentralização da carreira decorrente de nossa vida consumista, ou então quando inconvenientemente, a tua vida privada se mistura muito com a tua vida profissional, e principalmente, do trabalho cego e superfocado que a gente acaba fazendo quando vira um workaholic.



Eu não sei se consigo chegar em alguma conclusão com esse artigo, mas creio que uma das coisas que eu vejo como “antídoto” do que acho ruim no consumismo classe-média atual é a valorização de boas ações e boas amizades, de poder contar com uma boa conversa e companhia de pessoas positivas, criativas, cheias de vontade de querer fazer alguma coisa. Outro ponto que destaco é a valorização de fazer alguma coisa para si, de buscar fazer sempre algo que te agrada (música, leitura, jardinagem, fazer algum projeto em casa). Acho que é importante procurar fazer alguma coisa para o teu círculo de vida ou sociedade, seja uma atividade para o grupo ou alguma atividade possa ajudar outras pessoas.

Eu ainda não consegui chegar nesse estágio de desenvolvimento pessoal, espero sinceramente que um dia eu consiga quebrar um pouco o comodismo e a visão “territorial réptil” que me acompanha. Por fim, já que não chegarei uma conclusão mesmo e o texto virou um tratado de meu moralismo (o que não queria que fosse), o título desse artigo é uma frase do filósofo grego Hipócrates, que eu descobri em alguma leitura qualquer dessa vida; a tradução foi arranjada por mim, então é minha interpretação:


Ars longa, vita brevis, occasio praeceps, experimentum periculosum, iudicium difficile.
A Arte/ofício é longa/dura, a vida é curta, a oportunidade é fugaz, a experiência é perigosa e o julgamento é difícil.
(Hipócrates).


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